terça-feira, 28 de abril de 2009

Teologia nas Encruzilhadas

Teologia nas encruzilhadas: início de conversa para uma teologia líquida e sua redundância.

Jorge Nery[1]

Teologia é encontro e diálogo, arrebatamento do mistério, ai, onde a gente fica parado, suspenso entre o tudo e o nada,sem saber o caminho, na angústia, em busca de distração, aliás o filósofo Blaise Pascal, já anotava esta angústia humana, demasiada humana.
Nada é tão insuportável ao homem quanto estar em pleno repouso, sem paixões, sem negócios, sem divertimentos, sem atividades. Ele então sente seu nada, seu abandono, sua insuficiência, sua dependência, sua impotência, seu vazio. Imediatamente sairá do fundo de sua alma a angústia, o negrume, a tristeza, a aflição, o despeito, o desespero. (PASCAL, 1999)[2]

Entre caminhos, deixado ai, feito cão sem dono, como nos versos de Drumonnd... E agora, José? Qual bicho do mato... Guimarães Rosa lembra que é nas encruzilhadas que Ele, aquele do qual não se pode dizer o nome, se apresenta... Gilberto Gil , diz, que pra se falar com Deus é mister calar a voz. Quem se arrisca e se atreve a falar do mistério, devia tomar cuidado com versos, mexer com o silêncio é por demais incerto, e o que daí surgir, pode deixar a alma mais inquieta. Mas quem disse que ela, não vai ousar transgredir, comer do fruto, fruir e fluir? Ela nos fez assim, sem medo de ir além, nos jogou pra fora do paraíso, nos desafiou a autopoiéses, caminhos abertos e entrecruzados, sem sinalizações, mas prenhe de significados e de vida. Aqui nos desterros e descambados terrenos, íngremes e dificultosos, neles traçamos nossa caminhada e neles experimentamos as epifanias do sagrado, descendo os vales e se aventurando nos abismos, nos jogamos neles numa espiral de ventanias. Achegamos-nos aos caminheiros e peregrinos, ouvimos suas prosas e poesias, e com eles cantamos rimas de esperança, despojados de pertences, mais sedentos de sabenças. Continuando a viagem, nos deparamos com um rio, e ai como que seduzidos pela transgressão das fronteiras, seguimos em canoa, pela terceira margem[3], trilha insólita e líquida, como estes tempos – tempus fúgitus e tempus líquidus. Teologia se faz, nos entremeios, nos interstícios, e hoje, mais ainda, ela se faz liquefazendo-se.
[1] Professor no STBNE, na FBB e membro do CEPESC e associado ao Portal da Vida. Mestrando em História pela UEFS.
[2] PASCAL, Blaise – Os pensamentos in: Pensadores. São Paulo: Nova Cultural Ltda., 1999.
[3] Conto de Guimarães Rosa

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