terça-feira, 28 de abril de 2009

Teologia Pública e Cidades

Teologia Pública e Cidades

Jorge Nery[1]



“A teologia pública é a política pensada teologicamente e a teologia na abordagem política; por outro lado, também é a cultura num aspecto teológico e a teologia sob o aspecto cultural. Ou seja, a teologia dialoga com a igreja e a igreja dialoga com a teologia. Porém o futuro da igreja e da teologia é o Reino de Deus, e isso tem de ser centro de tudo.”

Jürgen Moltmann



Em novembro de 2008, pela segunda vez no Brasil, esteve o teólogo alemão Jürgen Moltmann, 82 anos, além de honrarias, como o título Doutor Honoris Causa, concedido pela UMESP, ele também lançou o livro, Testamento teológico para América Latina. Conhecido no mundo acadêmico por sua fértil e brilhante produção teológica a exemplo de sua obra Teologia da Esperança, publicado em 1964, onde preconiza que é necessário aplicar a esperança não somente na eternidade, mas exercitá-la para que cause efeitos nos dias de hoje, Moltmann lembra que “a maioria dos cristãos está aguardando o céu, e não uma nova terra, de onde brota a justiça” [2].

Suas considerações indicam que uma igreja desconectada do cotidiano não tem futuro, só passado. Sua teologia brota de suas experiências como prisioneiro na segunda guerra mundial, entre 1945 e 1948 onde fora integrante da Força Aérea Alemã, sendo, capturado pelas forças aliadas e mantido preso na Bélgica e na Inglaterra. “Foi quando clamei, diz ele: Meu Deus onde estás?. Desde então fui perseguido pela pergunta básica acerca do porquê de estar vivo e de qual o sentido de minha existência”. Numa obra conhecida, O Deus crucificado (1972), assevera que, “um Deus incapaz de sofrer é também incapaz de amar”. A tragédia de Auschwitz e o extermínio de judeus fazem o filósofo Emmanuel Lévinas perguntar: “Como falar de Deus depois de Auschwitz?” Ao que Moltmann responde, com outra pergunta: “De quê, então, é para falar depois de Auschwitz, senão de Deus?”. Sua cristologia lembra que a maioria das pessoas são vítimas e não opressoras, portanto, deve-se vivenciar uma cristologia que proclame enfaticamente que Jesus está ao lado das vítmas e que Deus fará justiça. Em sua eclesiologia e pneumatologia, presente também na sua obra A Igreja no poder do Espírito (1975), ele afirma que: “A Igreja deve estar aberta a Deus, aos homens e ao futuro, tanto de Deus quanto dos homens (...) isso pede da Igreja não uma simples adaptação às rápidas mudanças sociais, mas uma renovação interior pelo Espírito de Cristo”.[3]

Estas intuições de Moltmann nos desafiam a exercitarmos uma teologia conseqüente, responsável com o mundo em que vivermos uma teologia que assuma as vicissitudes humanas e isto em conexão com o organismo vivo que é a terra. “Devemos abrir os olhos para orar, sem esquecer de vigiar”, estar atentos aos sinais dos tempos, de buscar uma participação efetiva, de reconhecer a ação do Espírito de Deus no mundo, onde novos espaços de fraternidade e liberdade florescem, onde correm rios de justiça, em meio à sequidão das desertificações produzidas pelo o pecado humano. Seguindo Johann Baptist Metz (1980), afirmamos:

“A intenção e tarefa de toda a teologia cristã poder-se-iam definir como apologia de uma esperança. (...) Daquela esperança solidária no Deus dos vivos e dos mortos, que chama todos os homens ao ser-sujeito na sua presença. Não se trata da luta entre idéias e concepções anônimas, sem sujeito. Trata-se, pelo contrário, da situação histórico-social concreta de sujeitos, das suas experiências, dos seus sofrimentos e das suas contradições”. [4]

Mais uma vez, não só as vozes dos oprimidos e proscritos do mundo, abafadas pelos espinhos do etnocentrismo, da misogenia, da homofobia, do racismo, mas também deste globaritarismo, ou nas palavras de Moltmann “(...) Nesta globalização sem globo, ou seja, a Terra sem voz. Precisamos de uma nova política da terra, uma nova economia da terra, isto é, uma nova ligação com o organismo vivo que a Terra representa”. [5]
Vivemos a experiência urbana, jamais vista em tempos passados, somos urbanóides, clivados pelas contradições da (des) ordem destes espaços artificiais, (des) humanizados e massificantes, onde a lógica do consumo e do capital, transforma tudo em mercadoria, coisificando a vida humana e humanizando os seus fetiches. São tempos insólitos e líquidos, onde os vínculos e as identidades serpenteiam nas negociações cotidianas, nem sempre fluidas. É nesta caosmose, nesta polifonia de vozes que clamam, em busca ou não de perspectivas, nestes estreitos espaços, clandestinos espaços que nos ocorre, onde devemos assumir a urgência da hora, e se pôr neste redemoinho, movidos por uma fé diaspórica, entre exílios e a esperança, ou como desde 1950 nos lembrava, Richard Shaul (1987), “devemos estar onde a vida está sendo decidida” no meio do furacão (grifo nosso).

São as contribuições teológicas das teologias emergentes da década de 70 do século passado, nos desafiando a pensar as categorias de classe, de gênero e de etnia, e, hoje, as categorias da corporeidade, sexualidade e ecologia; bem como as não menos importantes, contribuições da Fraternidade Teológica Latina americana e seus congressos, muito antes de Lausane 1974, apontando para um engajamento sócio-político da missão, em resposta ao contexto de ditaduras presentes naquele momento, que, ambas são heranças traditadas e relidas em nosso meio, às vezes radicalizando-se, e, mais das vezes, diluindo-se nas intempéries dos tempos, são estes, marcos fundantes, a serem apropriados de forma crítica, criativa e cuidante, na prática e vida dos cristãos de agora.

As fronteiras do diálogo inter-religioso, as relações ecumênicas, a teologia das religiões, a afirmação do campo das ciências das religiões, são portas que se abrem mais e mais, para o pensar teológico profícuo nestes tempos. Uma teologia pública que se faz hoje deve de perto assumir estes aportes, não só como episteme, mas como agenda.
Aqui me arrisco ir terminando com os versos de um anônimo poeta errante:

Inté os riacho secou, e os caminhos, as pegadas não deixou
é nestas terras estranhas, onde as catedrais se demoronô,
que aqui vou parmiando,na minha dor,
tentando achar, uns cacos pequenos
nestes labirintos de pedras selvagens,
construir abrigos teimosos,
para esconder nossas existências, de incertas paisagens e passagens.

E ai seu moço, quem me ouve nesta cidade?...
[1] Professor do STBNE e da FBB na Bahia, Mestrando em História pela UEFS;
[2] Entrevista concedida à revista Cristianismo Hoje, dezembro2008/janeiro 2009, p.35.
[3] Idem, p.35
[4] METZ, Johann Baptist – A fé em história e sociedade. São Paulo: Ed. Paulinas, 1980, p.09.
[5] Cristianismo Hoje, p. 35

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